1944 — 1963
A fábrica
Jaime Miranda Azinheira nasceu em Peniche a 20 de Agosto de 1944 e morreu no Porto, cidade onde vivia, a 4 de Janeiro de 2016, com setenta e um anos. Foi escultor, desenhador, designer, cenógrafo e professor, e a ordem por que se escrevem estas palavras nunca corresponde à ordem por que as viveu: fez quase todas ao mesmo tempo, durante quarenta anos, sem alguma vez ter aceitado escolher uma.
Nasceu em Peniche, porto de pesca e de indústria, mas cresceu na Póvoa de Varzim. A família mudou-se muito cedo, porque o pai, João Azinheira, geria ali a Fábrica de Conservas «Madrugada», na Rua Almirante Reis. A Madrugada nascera em Olhão em 1920 e instalara-se na Póvoa em 1943, um ano antes de ele nascer; enlatava sardinha em azeite sob nove marcas — a sua própria, e a Ala-Arriba, que é o grito dos pescadores poveiros — e mandava-a para a Alemanha, os Estados Unidos, a Itália e a União Soviética. Nos anos oitenta ainda tinha cento e setenta trabalhadores e fazia mil e quinhentas toneladas por ano.
Foi dentro desse mundo que passou a infância e parte da juventude, e foi de lá que trouxe a obra inteira, embora só o tenha dito por escrito muitos anos mais tarde. Em Setembro de 1996, num depoimento para um catálogo, descreveu-o assim: um ambiente industrial e portuário, «povoado por máquinas gigantescas, sobredimensionadas, como ainda era uso dos anos 40, e especialmente desmedidas para os olhos de um puto com 3 anos que era a minha idade quando comecei a desvendar a fábrica». E enumerou-as, uma a uma, como quem nomeia animais: «carcaças estranhas em ferro fundido, volantes, alavancas que vão e vêm, tirantes, êmbolos ligados a excêntricos, parafusos e porcas maiores que o meu punho, tudo em movimento com ruídos díspares que se fundiam num rugir amorfo».
Tinha três anos quando começou a andar por lá — o que quer dizer que a família já estava na Póvoa por volta de 1947. Dormia por cima de uma dessas máquinas. Gostava delas: eram «criaturas monstruosas e ameaçadoras», mas os homens que as operavam, «meus aliados», sabiam dominá-las. Está aqui, escrito pelo próprio, o programa de toda a obra que viria a fazer — a escala desmedida, o perigo controlado, o monstruoso que afinal é doméstico.

1964 — 1969
A escola e a guerra
Estudou no Porto, na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis e, entre 1964 e 1965, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, entrou na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. O curso ficou interrompido pela guerra. De Setembro de 1966 a Novembro de 1969 cumpriu serviço militar, com vinte e seis meses na Guiné — a Guerra Colonial, na frente onde ela correu pior ao exército português. Tinha vinte e dois anos quando partiu. Trouxe de lá fotografias, muitas, que estão neste arquivo. Voltou com vinte e cinco e não regressou à escultura.
1970 — 1981
O desenho
Regressou ao desenho, que é outra coisa. Durante toda a década de setenta trabalhou como designer — de equipamento, de comunicação, de edição — e como ilustrador. São dez anos de profissão, não de intervalo, e a obra posterior nunca os desmentiu: a atenção ao objecto, à montagem, ao desenho que primeiro resolve e só depois comove, vem daí. Em 1979 começou a ensinar, Educação Visual no ensino preparatório, onde ficaria até 1984.
Só em 1980, aos trinta e seis anos, concluiu o curso de Escultura na ESBAP, com dezasseis valores. Começou a expor imediatamente a seguir, e a obra apareceu já feita, sem período de tacteio. Entre 1981 e 1983 recebeu nova bolsa da Gulbenkian, agora para investigação em escultura.
1982
Serões
1982 é o ano em que tudo acontece de uma vez. Faz a primeira individual, «Serões — 5 histórias em 3 dimensões», na Cooperativa Árvore, no Porto: cinco grupos escultóricos em gesso policromado, cada um com o seu título — Telenovela, Sueca, Jornal, Tricot e Taberna. São cenas banais de gente comum, e os títulos dizem tudo antes de se ver a obra. É deste conjunto que sai quase tudo o que hoje está em colecções públicas.
Nesse mesmo ano recebe uma menção honrosa na III Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira com a escultura «A Sueca», hoje propriedade do Ministério da Cultura e em depósito na Fundação de Serralves. Faz «O Beijo», gesso pintado de 124 × 110 × 73 centímetros, que a Fundação Calouste Gulbenkian compra no ano seguinte e que continua a ser, até hoje, a única obra sua no Centro de Arte Moderna. E assina a sua primeira cenografia documentada: «Longe da Cidade», de Jean-Paul Wenzel, encenação de Correia Alves, para a Seiva Trupe. Tem trinta e oito anos e está a fazer, no mesmo ano, escultura de museu e cenário de teatro. Nunca mais deixaria de fazer as duas coisas.
O método
O gesso
Modelava em barro e passava a gesso por molde perdido. A intenção inicial era outra: queria passar as peças a poliéster, mas o material era caro, não dominava a tecnologia e não morria de amores por ela — «o cheiro nauseabundo do poliéster e as farpas cancerígenas da fibra de vidro». Ficou-se pelo gesso por falta de dinheiro e descobriu, no caminho, que o gesso tinha uma mais-valia: deixava-se trabalhar depois de desmoldado, o que lhe permitia corrigir a forma e enriquecer a superfície com texturas.
Só uma peça foi modelada directamente em gesso, «O Beijo»: estrutura de ferro e arame grosso, topografia definida com rede de capoeira de malha fina, revestida com linhadas de sisal embebido em gesso a suportar as camadas modeláveis; espátulas, grosas de lâmina vazada, escovas de aço, lixas de vários grãos. Do gesso dizia que o interessava «a diversidade de potencialidades plásticas que permitem uma linguagem muito rica» e a facilidade com que tudo é reversível — e que, como material de modelação, o achava «pouco expedito», «enredoso e demorado». Rematava: «No entanto confesso que gosto do resultado.»
A matéria da obra é frágil por decisão, não por acaso. Gessos de grandes dimensões, papel, polivinilo, papel com vinílica e acrílico — materiais que se partem, trabalhados com uma técnica de moldagem que era dele e que raramente explicou. Deles saem figuras volumosas, de desenho vincado, apanhadas em situações do dia a dia: pitorescas e caricatas, tão poéticas quanto trágicas, expressivas até ao monstruoso e ainda assim profundamente humanas. É essa combinação — a massa enorme feita de coisa que se rasga, a gente comum tratada em escala de monumento — que lhe dá, na escultura portuguesa da segunda metade do século, um lugar que não se confunde com nenhum outro.
1984 — 1986
Taberna
Em 1984 leva «Taberna» à IV Bienal de Cerveira — o último dos cinco grupos dos «Serões», um gesso policromado de 246 × 184 × 180 centímetros, uma cena de taberna à escala real, obra inteiramente sua. Ganha com ela o prémio de escultura da Bienal, atribuído ex aequo a ele e à escultora Clara Menéres, cada um pela sua obra. «Taberna» fica na colecção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira, onde permanece. Do mesmo ano é «O Jornal», também em gesso policromado, hoje na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia.
Em 1985 dão-se duas coisas. Passa a ensinar na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde ficará vinte anos. E, a 11 de Julho, está entre os artistas que se reúnem na Casa-Museu Teixeira Lopes para fundar os Artistas de Gaia — Cooperativa Cultural, que existe ainda hoje. No ano seguinte volta à Árvore para a segunda individual, com a série «Scarface», em papel com vinílica e pintura acrílica. Dessa altura é «Máscara III», pasta de papel de 108 × 83 centímetros, que ainda está no acervo da Cooperativa.
1982 — 1994
O teatro
O teatro corre em paralelo à escultura e não abaixo dela. Depois da Seiva Trupe vieram Os Comediantes, a companhia do Porto fundada no final de 1983, e com eles «O Pássaro Verde», de Carlo Gozzi, encenado em 1988 por João Paulo Costa. A cenografia valeu-lhe o Prémio Garrett de Teatro. Trabalhou também com o TEUC, o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, numa peça de Boris Vian cuja identificação continua por fazer.
E em 1994 entrou no Teatro O Bando, para «Esta Noite», a partir de Pirandello, com encenação de João Brites: uma co-produção da Culturgest e da Lisboa’94, Capital da Cultura, estreada a 25 de Maio na Culturgest, em Lisboa. Assinou os figurinos e as máscaras. É o trabalho onde a escultura e o teatro se encontram por inteiro — as máscaras são, afinal, a mesma coisa que ele fazia em gesso e em papel, agora postas na cara de um actor.
1992 — 1995
Tocar, representar
Em 1992 «O Beijo» sai das reservas da Gulbenkian para uma exposição de escultura para invisuais, no Convento dos Cardais, em Lisboa: obras feitas para serem tocadas, em que o visitante descobre pelas mãos a forma, a estrutura e a textura. Para um escultor cuja matéria era toda superfície, foi provavelmente a exposição mais justa que teve.
Em 1995, a 2 de Janeiro, a RTP2 emite «Saudade», o quarto e último filme da série «Outonos» — quatro telefilmes sobre figuras da cultura portuguesa cuja morte foi uma opção. Realização de Francisco Manso, argumento de Miguel Faria. Quem faz Soares dos Reis é Jaime Azinheira. Não foi um escultor escolhido ao acaso para fazer de escultor: entre os catorze actores do elenco estão João Paulo Costa, o encenador d’«O Pássaro Verde», e João Cardoso, um dos fundadores d’Os Comediantes. Foi filmado dentro da sua própria casa profissional.
1985 — 2005
A escola
Ensinou vinte anos. Acompanhou a instituição na sua mudança — a ESBAP passa a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto a 24 de Novembro de 1992 — e foi lá que se doutorou. Em Outubro de 2000 o Diário da República regista-o como professor auxiliar da FBAUP. Ensinou escultura e desenho, e de quem passou pelas suas aulas ficou a mesma frase repetida: que era um pedagogo inspirador e que tinha uma mão única para o desenho. Jubilou-se em 2005.
1996 — 2000
A rua
Entretanto a obra tinha saído da galeria para a rua. Em 1997 inaugura-se na Póvoa de Varzim, na Avenida dos Descobrimentos, junto à lota, o Monumento de Evocação da Lota — Homenagem às Mulheres do Mar: um grupo de mulheres em bronze, em plena actividade, com um excerto de «Os Pescadores» de Raul Brandão gravado na base. Não é uma encomenda qualquer: é a terra onde cresceu, e são as mulheres do peixe e da fábrica da sua infância, feitas em bronze cinquenta anos depois. Em 2000, a 18 de Junho, é inaugurada em Viana do Castelo, junto à estação de caminhos de ferro, «Hei-de Voltar a Viana»: dois bailarinos em traje vianês a dançar o vira, duas figuras de dois metros e meio em bronze. São obras de encomenda pública, matéria dura, exactamente o contrário do gesso e do papel — e mostram um escultor a mudar de registo sem mudar de assunto: continuam a ser pessoas do trabalho, apanhadas num gesto.
Em Setembro de 1996 tinha ido a um simpósio de escultura trabalhar granito pela primeira vez, e escreveu na altura o texto mais claro que deixou sobre o seu próprio método. Descreve a peça que ali fez — uma lâmina de pedra encaixada numa rampa de ferro, sempre prestes a deslizar, presa em equilíbrio precário por cabos suspensos de um contrapeso pequeno de mais e de duvidosa eficácia — e reconhece nela, sem cerimónia, «os recortes oníricos desse sentimento inquietante de iminência de perigo controlado que em menino experimentei perante as máquinas com que de perto convivi». Acrescenta, com a ironia que era a sua: seria uma peça psicanalítica, se ele acreditasse na linearidade das relações de causa e efeito. E confessa-se, quanto ao granito, «um debutante».
2003 — 2015
As últimas figuras
Não parou depois de se jubilar. Em 2003 e 2004 assinou as peças escultóricas editadas pelo FITEI, o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica. E em 2015, aos setenta anos, fez o que é, tanto quanto se sabe, o seu último trabalho: a cenografia, as marionetas e os figurinos de «As Filhas do Diabo», da Companhia Limite Zero, com Raul Constante Pereira — um espectáculo a partir de dois contos tradicionais, em cena no Museu da Marioneta entre 22 de Abril e 4 de Maio de 2015. Acabou como tinha começado: a fazer figuras, agora movidas por mãos.
2016 — 2017
Depois
Morreu no Porto na madrugada de 4 de Janeiro de 2016. Dois dias depois, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim juntou-se em frente ao monumento das mulheres do mar e o presidente depositou-lhe uma coroa de flores; disse-se, nesse dia, que Jaime Azinheira ficava «eternamente ligado à Póvoa de Varzim». Em 2017, a XIX Bienal Internacional de Arte de Cerveira homenageou-o, ao lado de Paula Rego e de Ernesto de Sousa, com uma exposição no Convento de San Payo, feita de obras inéditas da colecção particular da família.
A obra está no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, na Fundação de Serralves, na Casa-Museu Teixeira Lopes, na Biblioteca-Museu de Vila Nova de Gaia, no acervo da Fundação Bienal de Arte de Cerveira, no da Cooperativa Árvore, no Clube Náutico Caminhense, nas ruas da Póvoa de Varzim e de Viana do Castelo, e em colecções particulares. A maior parte, porém, continua onde sempre esteve: em casa, na colecção da família, por inventariar.
É esse o trabalho que este arquivo começa.